Açúcar e o coração: uma relação nada doce

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Por Sandro L. Marques 

Desde os anos 1950, quando as crescentes taxas de mortalidade por doença cardiovascular levaram os cientistas a pesquisarem o papel dos fatores dietéticos na gênese desta doença, temos tentado encontrar a “fórmula” de uma alimentação saudável que nos ajude a preveni-la. Ouvimos, há muito tempo, que o colesterol e a gordura saturada são os grandes vilões e assim, muito esforço tem sido dedicado a reduzir a quantidade destes componentes na nossa alimentação. Nos preocupamos muito com a gordura e a conversa sobre o açúcar foi simplesmente deixada de lado. Nos últimos anos, porém, tem havido intenso debate sobre a contribuição do açúcar na doença coronariana, com um  estudo1 revelando o triplo da mortalidade cardiovascular entre os que consomem mais de 25% de suas calorias diárias provenientes do açúcar adicionado, quando comparados àqueles que consomem menos de 10%. Os mecanismos pelos quais o açúcar provoca tal efeito são complexos e múltiplos, e irão acelerar o processo de aterosclerose nas artérias. Além disso, existe forte associação entre o seu consumo e a atual epidemia mundial de obesidade e Diabetes tipo 2.

Este debate ganhou um novo capítulo recentemente, com a divulgação de um estudo2 que revelou que a indústria do açúcar financiou e nitidamente influenciou os resultados de uma grande pesquisa de revisão sobre o assunto, realizada nos anos 1960, a qual norteou, nas décadas seguintes,  as recomendações oficiais sobre nutrição. Esta pesquisa claramente minimizou os sinais de que o consumo de açúcar era um fator de risco para a doença coronariana. E infelizmente, esta não é apenas uma história antiga; a indústria de alimentos continua a patrocinar pesquisas e os conflitos de interesse nem sempre são divulgados. Em 2015, o jornal americano The New York Times denunciou que uma fabricante de refrigerantes pagou milhões de dólares para financiar pesquisas que minimizassem o efeito de seus produtos na obesidade.3

O açúcar adicionado não é uma necessidade biológica, mas é difícil ficar livre dele; ele está muito presente no nosso dia-a-dia, e muitas vezes oculto; é acrescentado em quase 80% dos alimentos processados, por exemplo. As organizações de saúde ainda discutem sobre qual seria o limite diário de consumo, mas o bom senso, como sempre, é fundamental: uma guloseima eventual certamente não lhe trará problemas, mas o excesso poderá dar bastante trabalho ao seu Cardiologista.

1. JAMA Intern Med. 2014; 174: 516-524

2. JAMA Intern Med. 2016;176(11):1680-1685

3. O’Connor A. Coca-Cola funds scientists who shift blame for obesity away from bad diets. New York Times, August 9, 2015.

Dr. Sandro L. Marques é  cardiologista formado em Medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina, com Residência Médica em Medicina Interna e Cardiologia e Título de Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia. Acesse perfil

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